LLA Ph+: associação entre resposta clínica, tolerabilidade ao tratamento e qualidade de vida relacionada à saúde em pacientes tratados com ponatinibe ou imatinibe
Estudo demonstra que a obtenção de resposta clínica melhora significativamente a qualidade de vida, enquanto efeitos colaterais do tratamento impactam negativamente de forma ainda mais expressiva
Escrito por: Germano Glauber de Medeiros Lima
A leucemia linfoblástica aguda Philadelphia-positiva (LLA Ph+) representa cerca de 25% dos casos de LLA em adultos. O tratamento padrão inclui a combinação de quimioterapia com inibidores de tirosina quinase (ITKs) dirigidos contra BCR::ABL1. Embora o imatinibe e outros ITKs de primeira e segunda geração tenham melhorado os desfechos clínicos, mutações como T315I podem conferir resistência. O ponatinibe, um ITK de terceira geração, mostrou eficácia superior em ensaios clínicos, inclusive contra mutações de resistência.
Além dos desfechos clínicos tradicionais, a qualidade de vida relacionada à saúde (QVRS) é um parâmetro fundamental, especialmente considerando a toxicidade associada às terapias contra o câncer. Dados reportados pelos pacientes (PROs) são cruciais para avaliar o impacto do tratamento na sua percepção de bem-estar, principalmente em contextos de aprovação regulatória acelerada. Este estudo teve como objetivo investigar a associação entre a resposta clínica (como remissão completa – RC), a tolerabilidade autorreportada ao tratamento e as mudanças na QVRS, buscando aprofundar a compreensão sobre os benefícios do ponatinibe em comparação com o imatinibe.
Metodologia
Esta análise secundária utilizou dados do ensaio de fase 3 PhALLCON, que randomizou adultos com LLA Ph+ recém-diagnosticada para receber ponatinibe ou imatinibe combinado com quimioterapia de intensidade reduzida. A QVRS foi avaliada por meio dos questionários FACT-Leu (incluindo domínios como bem-estar físico, escore total e índice de desfecho do estudo) e EQ-5D-5L (com sua escala visual analógica – EVA e índice de utilidade). A tolerabilidade foi medida pelo item GP5 do FACT (“Sinto-me incomodado pelos efeitos colaterais do tratamento”). Modelos lineares de efeitos mistos para medidas repetidas (MMRM) foram aplicados para analisar as mudanças na QVRS ao longo do tempo, utilizando o estado de resposta clínica e a tolerabilidade como preditores variantes no tempo, com ajuste para covariáveis significativas. A análise incluiu 238 pacientes com avaliações basais e pós-basais de PROs.
Resultados/Discussão:
A obtenção de resposta clínica (RC/RCi) foi associada a mudanças significativamente melhores desde a linha de base em todos os domínios do FACT-Leu e na EVA do EQ-5D, com diferenças clinicamente significativas em escores como o total do FACT-Leu. No entanto, uma resposta molecular mais profunda (ex.: RC com doença residual mínima negativa) não resultou em ganhos adicionais de QVRS além da RC, sugerindo que a resolução dos sintomas clínicos é o principal impulsionador da melhora percebida pelo paciente.
Em contraste, a intolerabilidade ao tratamento, medida pelo grau de “incômodo” com os efeitos colaterais, demonstrou um impacto negativo marcante e clinicamente significativo em todos os domínios da QVRS. Este efeito foi dose-dependente: quanto maior o grau de incomodo relatado, maior a piora na QVRS. Curiosamente, a magnitude do impacto negativo da intolerabilidade ao tratamento sobre a QVRS foi substancialmente maior do que o impacto positivo da obtenção de resposta clínica. Esses achados reforçam que, embora a eficácia antitumoral seja crucial, a tolerabilidade ao tratamento é um determinante ainda mais forte da experiência de vida do paciente durante a terapia.
Conclusão
Este estudo confirma que a obtenção de resposta clínica em pacientes com LLA Ph+ tratados com ITKs está associada a melhoras significativas na qualidade de vida. Entretanto, destaca que os efeitos colaterais do tratamento têm um impacto negativo na QVRS ainda mais pronunciado. Os resultados sustentam os benefícios do ponatinibe sobre o imatinibe, já que o primeiro demonstrou melhor tolerabilidade global no ensaio PhALLCON. A análise reforça a importância de considerar tanto a eficácia quanto o perfil de tolerabilidade na seleção da terapia, e a necessidade de monitorar e manejar proativamente os efeitos adversos para otimizar os resultados relatados pelos pacientes.
Referência:
1) Ashaye A, Shi L, Aldoss I, et al. Impact of clinical response and treatment tolerability on HRQoL in newly diagnosed Philadelphia chromosome-positive acute lymphoblastic leukemia patients treated with ponatinib or imatinib. Ann Hematol. 2025;104(9):4669-4678. doi:10.1007/s00277-025-06635-0

