Eficácia e segurança de longo prazo do mitapivat em pacientes com talassemia α ou β não dependentes de transfusão: resultados de um estudo de fase 2

Mitapivat demonstra aumento sustentado de hemoglobina (>1,0 g/dL) por até 156 semanas e perfil de segurança favorável em pacientes com talassemia não dependentes de transfusão
Escrito por: Germano Glauber de Medeiros Lima
A talassemia é um distúrbio hereditário causado por mutações nos genes da globina, levando a desequilíbrio na produção de cadeias α e β, anemia crônica e complicações como hemólise e sobrecarga de ferro. Pacientes com talassemia não dependentes de transfusão (NTDT) apresentam morbidade significativa e qualidade de vida reduzida, com opções terapêuticas limitadas. O mitapivat, um ativador alostérico oral da piruvato quinase (PKR), aumenta a produção de ATP em eritrócitos, melhorando sua sobrevida e reduzindo a eritropoiese ineficaz.
Este estudo de fase 2 avaliou a eficácia e segurança do mitapivat (100 mg duas vezes ao dia) em adultos com NTDT (α ou β) por até 156 semanas. Os objetivos incluíram: 1) avaliar o aumento sustentado de hemoglobina (Hb); 2) analisar marcadores de eritropoiese, hemólise e homeostase do ferro; e 3) monitorar eventos adversos.
Metodologia:
Estudo aberto, multicêntrico (NCT03692052), com período inicial de 24 semanas e extensão de até 10 anos. Incluiu 20 pacientes (17 continuaram na extensão), dos quais 24% tinham talassemia α e 77% β. Os desfechos primários foram alterações na Hb e marcadores laboratoriais (eritropoetina, LDH, bilirrubina indireta, ferritina). A segurança foi avaliada por eventos adversos (EA) e densidade mineral óssea. Análises estatísticas descritivas foram realizadas.
Resultados:
O mitapivat induziu aumento mediano de Hb de 1,2 g/dL desde a linha de base até a semana 156, com 80% dos pacientes atingindo resposta inicial (aumento ≥1,0 g/dL nas semanas 4–12). Melhorias sustentadas foram observadas em marcadores de hemólise (LDH: redução mediana de 14,5 U/L) e eritropoiese (eritropoetina: -15,0 UI/L). A segurança foi favorável: apenas 29% dos pacientes tiveram EA grau ≥3 (nenhum relacionado ao tratamento), sendo os mais comuns cefaleia (47%) e artralgia (47%). Não houve impacto negativo na densidade óssea.
Discussão:
Os resultados sugerem que o mitapivat atua na fisiopatologia da talassemia, melhorando a saúde eritrocitária e reduzindo a hemólise. A ausência de grupo controle e o pequeno tamanho amostral limitam generalizações, mas os dados sustentam ensaios de fase 3 em andamento (ENERGIZE e ENERGIZE-T).
Conclusão:
O mitapivat demonstrou eficácia sustentada por até 3 anos, com aumento significativo de Hb e melhora em parâmetros hematológicos, além de segurança consistente. Esses resultados destacam seu potencial como primeira terapia oral modificadora de doença para NTDT, oferecendo uma alternativa promissora para reduzir complicações e melhorar a qualidade de vida. Estudos randomizados confirmatórios são necessários para validar esses achados.
Referência:
1) Kuo KHM, Layton DM, Lal A, et al. Long-term efficacy and safety of mitapivat in non-transfusion-dependent α- or β-thalassaemia: An open-label phase 2 study. Br J Haematol. 2025;206(6):1764-1773. doi:10.1111/bjh.20058